Capítulo 1 - O Talvez

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POV Daphne

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POV Daphne

Eu estou cansada.

Não é um cansaço que se resolve dormindo.

É aquele que mora no peito. Que pesa. Que arranha por dentro.

Cansada de ser desejada… mas nunca escolhida.

Eu encaro meu reflexo no espelho. O vestido vinho desenha meu corpo. O cabelo está perfeito. A maquiagem impecável.
Eu estou linda.
Sempre estou.

Mas nunca sou suficiente para ficar.
— “Você é incrível, Daphne… mas eu não estou pronto para algo sério.”

Eles sempre dizem isso.
Muda o rosto.
Muda a voz.
Mas o final é o mesmo.
Eu nunca sou o plano.
Sou o momento.

Meu celular vibra na cama.
"Você merece alguém melhor."
Eu rio.
Melhor do que alguém que nunca me escolhe?
Bloqueio o número.
Não por orgulho.
Por dignidade.

Caminho até a janela e deixo o vento frio tocar meu rosto. A cidade continua viva, indiferente ao fato de que meu coração acabou de sofrer mais uma pequena fratura.
Minha mão desliza até meu quadril esquerdo.

A cicatriz.

Fina. Curva. Permanente.

Dez anos atrás houve um acidente. Eu sei disso. Sei que fiquei hospitalizada. Sei que minha memória daquele dia é um vazio estranho.
Mas eu não lembro da dor.
Não lembro do impacto.
Não lembro de quem estava comigo.
É como se alguém tivesse arrancado aquele dia da minha vida.
E talvez seja melhor assim.

Eu me deito na cama ainda vestida.

Será que o problema sou eu?
Eu amo demais?
Sinto demais?
Espero demais?

Um carro passa em alta velocidade na rua.
O som me atinge como um choque.
Vidro quebrando.
Chuva forte.
Alguém gritando meu nome.

Eu sento na cama de uma vez, o coração disparado.

Meu nome.
Alguém gritou meu nome.
Mas a lembrança escorre pelos meus dedos antes que eu consiga segurá-la.
Silêncio.

— Foi só coisa da sua cabeça… — eu sussurro.

Mas não foi.
Eu sinto.
Tem algo que eu esqueci.
E seja lá o que for… ainda não terminou comigo.

POV Nicolas

Eu nunca esqueci.

Nem por um único dia.

A fotografia está nas minhas mãos. Eu devia ter guardado. Devia ter deixado no passado. Mas nunca consegui.
Ela está sorrindo na foto.

Daphne.

Cabelo bagunçado pelo vento. Olhos brilhando. A garota que sempre foi luz demais para alguém como eu.
Eu fecho os olhos.
E a chuva volta.
Eu estava dirigindo.
Estava com raiva. Jovem. Idiota. Achando que tinha controle de tudo.
Ela estava no banco do passageiro.

— “Nicolas, diminui.”
Eu não diminuí.

O carro perdeu estabilidade na curva. Eu lembro do grito dela. Lembro do pânico atravessando o meu peito.
E então…
Ela segurou o volante.
Ela puxou para o lado contrário.
Ela me salvou.
O impacto veio do lado dela.
O vidro estilhaçou.
O sangue era dela.
Sempre foi dela.
Eu sobrevivi praticamente ileso.
Ela ficou semanas no hospital.
E quando acordou…
Não lembrava.
O médico chamou de bloqueio traumático.
Eu chamei de misericórdia.
Porque como eu poderia viver sabendo que ela lembrava que quase morreu por minha culpa?

Eu aperto a foto com força.

A cicatriz no quadril dela… eu sei exatamente como aconteceu. Sei exatamente o que causou.
Ela carrega a marca no corpo.
Eu carrego na alma.

Eu fui embora da cidade pouco tempo depois. Disse que era para estudar. Crescer. Construir meu império.
Mas a verdade?
Eu fugi.
Fugi dela.
Fugi da culpa.
Fugi do amor que sempre senti e nunca achei que merecia.
Porque desde antes do acidente… ela já era tudo para mim.
E ela nunca soube.

Eu passo o polegar sobre o rosto dela na foto.

— Você nunca foi um talvez para mim, Daphne… — minha voz sai baixa.

Nunca foi.
Você sempre foi a única.
Mas eu nunca tive coragem de ser o homem que você precisava.
E agora eu estou voltando.
Não porque a culpa diminuiu.
Mas porque dez anos foram suficientes para entender uma coisa:
Eu posso não merecer o amor dela.
Mas não vou suportar vê-la sendo apenas um “talvez” para outros homens.
Se o destino está me dando uma segunda chance…
Dessa vez, eu não vou fugir.
E mesmo que ela não se lembre do dia em que salvou minha vida…
Eu lembro.
De cada segundo.
E talvez esteja na hora de ela descobrir que algumas cicatrizes não são apenas marcas.
São histórias inacabadas.

Entre Desejo e CicatrizesOnde histórias criam vida. Descubra agora