A carta chegou na manhã de um domingo chuvoso, entregue por um mensageiro real que aguardou na entrada da mansão Blackwood com a paciência de quem estava acostumado a missões de Estado. O envelope, lacrado com cera vermelha estampada com as armas da Coroa Britânica e o selo da embaixada francesa, pesava mais do que qualquer carta que Adrian Blackwood recebera em anos.
A família estava reunida no café da manhã quando o mordomo entrou. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Anne, que aos doze anos já era a mais barulhenta dos irmãos, pareceu compreender que algo grave estava prestes a acontecer.
Adrian tomou o envelope com dedos que, Arabella notou, tremiam ligeiramente. Ele o abriu com o cuidado de quem desarma uma armadilha, e seus olhos percorreram o conteúdo uma, duas, três vezes. O papel caiu sobre a mesa quando ele terminou.
— É ordem — disse, e sua voz estava estranhamente vazia. — Ester deve partir em três dias.
Ninguém falou. O silêncio que se instalou sobre a mesa era denso, pesado, como o ar antes de uma tempestade. Arabella olhou para a irmã, sentada à sua frente, e viu algo que nunca vira em seu rosto: não surpresa, não medo. Era uma aceitação silenciosa, como se Ester sempre soubesse que aquele momento chegaria.
— Três dias — repetiu Ester, e sua voz era calma, controlada. A voz que usava quando todos ao redor perdiam a cabeça. — Tempo suficiente.
— Suficiente para quê? — Matthias perguntou, e sua voz estava trêmula de raiva. Aos vinte anos, ele era um homem agora, mas naquele momento parecia novamente o menino que não suportava ver as irmãs sofrerem. — Suficiente para se despedir? Suficiente para aceitar que estão te enviando como se fosses um pacote?
— Matthias — Elara advertiu, mas Ester ergueu a mão.
— Deixa, mãe. Ele tem razão. — Ela olhou para o irmão, e havia algo em seus olhos que Arabella não reconhecia. Uma dureza nova, forjada nos dois anos desde que a carta chegara pela primeira vez. — Estão me enviando como um pacote. Como uma moeda de troca. Como um tratado de paz com pernas. E não há nada que possamos fazer para mudar isso.
— Podemos lutar — Adrian disse, e sua voz estava mais firme agora. — Podemos recorrer. Podemos...
— Podemos o quê, pai? — Ester o interrompeu, e pela primeira vez, algo vacilou em sua calma. — Enfrentar a França? Enfrentar a Inglaterra? Enfrentar dois reinos que decidiram que eu sou o preço da paz? — Ela se levantou, e Arabella viu suas mãos tremendo. — Nós já enfrentamos o mundo uma vez. Quando a senhora escolheu o senhor. Quando a senhora desafiou a sociedade. E vencemos. Mas isso... isso é maior. É o trono. É a coroa. É algo que não podemos vencer.
— Ester... — Elara começou, mas a filha não a deixou terminar.
— Não, mãe. Não vou passar os próximos três dias fingindo que há uma saída. Não vou deixar que se desgastem lutando contra algo que não pode ser mudado. — Ela respirou fundo, e quando falou novamente, sua voz estava controlada. — Três dias. É tempo para me despedir. É tempo para arrumar as malas. É tempo para aceitar.
Ela se virou e saiu da sala antes que alguém pudesse responder.
Arabella a encontrou no jardim.
Ester estava sentada no mesmo banco de pedra onde passara tantas horas quando menina, o mesmo onde Anne aprendera os nomes das estrelas, o mesmo onde Isabelle declarara que seria pintora, o mesmo onde Leonard construíra suas primeiras maquetes. O jardim dos Blackwood era um lugar de memórias, e naquele dia, cada flor, cada árvore, cada folha parecia carregar o peso de tudo o que estava prestes a ser deixado para trás.
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O Príncipe Que Eu Não Queria
RomanceEnviada à França para um casamento arranjado com o príncipe herdeiro, Ester Blackwood espera encontrar um inimigo. Em vez disso, descobre Louis de Valois - um prisioneiro como ela, preso em um trono que não deseja. Entre salões de intrigas e jardins...
