Ravena odiava a ideia de aparecer demais. Claro que, sendo uma titã, não poderia impedir que as pessoas se interessassem por sua vida - e elas se interessavam. Muito -, mas pedia o máximo de privacidade que poderia ter.
Mal saía da Torre pra se divertir com os amigos, até porque, fora ensinada que diversão não era a melhor forma de gastar o tempo.
Às vezes gostava de ficar na praia que havia ali, ao redor da Torre. Deserta e bonita.
Claro que não era a única titã a frequentar a praia fria, mas ao decorrer do tempo, Mutano foi aprendendo que ela gostava de silêncio.
Gostava de não ser interrompida, gostava de não ser notada, mesmo que ele não entendesse os motivos, respeitava.
Poderia irritá-la quando quisesse na Torre, mas ali, naquela praia, eles eram desconhecidos.
Aquele era um daqueles momentos, onde ela e o menino verde partilhavam do mesmo local, porem distantes física e mentalmente.
Ela estava ali pra pensar.
Só pensar.
Apesar de mostrar-se neutra por fora, sua mente estava um caos por causa de suas emoções.
Elas queriam espaço. Queriam poder se expressar, queriam sentir.
Tinha dezoito anos de sentimentos não sentidos, e muito controle, diferente do metamorfo que estava sentado um pouco longe de si, com o queixo apoiado nos joelhos, e os pés enterrados na areia.
Sentia inveja da enxurrada de sentimentos que ele podia sentir.
E que enxurrada.
Ravena não podia e não conseguia não sentí-lo ali, tão intenso e presente.
Ele estava triste, e por alguma razão, quis saber o porquê. Todos sabiam que não era do seu feitio interferir em momentos como aquele, mas ela queria saber o que poderia ter abatido o garoto que aparentemente estava sempre alegre.
Arrastou-se calmamente até o menino, que permaneceu imóvel, apesar de suas orelhas se mexerem um pouco, entregando que ele estava ciente da aproximação.
- Oi. - Sua voz saiu num fiapo, rouca como sempre. O dia não estava ensolarado, pelo contrário; as nuvens estavam tão pesadas que ela sentia que, caso se esticasse um pouco, poderia tocá-las.
- Oi. - Mutano se virou para ela, bem surpreso. Sabia que Ravena gostava muito de todos os que moravam na Torre, mas ela não era muito de falar com ele.
Especialmente com ele.
Parecia que só se falavam para brigar - no caso dela -, ou irritar - no caso dele -, um ao outro.
Talvez ela não fosse muito com a sua cara.
- Está tudo...? Hm. Claramente não está tudo bem. Quer conversar sobre isso? - Ravena perguntou de uma vez, meio sem jeito.
Não queria parecer intrometida, ou seja lá o que Mutano pudesse pensar sobre ela.
- Hã... Conversar? - Perguntou meio lento, e a empata assentiu, tratando de se explicar prontamente.
- É... Se você quiser... Claro. Tudo bem se não quiser, eu só senti suas emoções e... Não que eu estivesse espionando, eu não consigo controlar essas coi...
- Hey, calma, Rae. - Mutano riu de leve com o desespero dela. Raramente via Ravena falando sem parar. Provavelmente fazia isso quando estava nervosa, coisa que ele nunca havia visto acontecer antes. - Eu entendi. Obrigado por ter vindo.
- De nada. - Agradeceu, e olhou para o mar, tentando não corar com o olhar do garoto sobre si.
Não gostava de pessoas a olhando intensamente.
Realmente não gostava.
- Se lembra da Tara? - Perguntou calmamente, e viu a empata assentir. - Acho que acabou mesmo entre a gente.
- Achei que estavam bem. - Franziu o cenho, se lembrando de algumas noites atrás, quando Tara viera comer pizza e assistir filmes com eles.
Tinha que admitir que, mesmo que ela estivesse "mudado", nunca confiaria na mesma de novo.
Não conseguia nem fingir simpatia, mesmo que fosse muito boa em fingir sentimentos.
No fundo, sabia que não queria fingir para Tara. Não se importava de mostrar que não gostava da mesma, mas também não intervinha quando Mutano a trazia para a Torre, e nem conspirava contra a loira. Seu descontentamento era particular.
- Eu sei. - Mutano falou, tirando-a do pequeno devaneio. - Eu também achei que estávamos, mas... Parece que um namorado verde não se encaixa nos padrões.
- Eu... Por que ela faria isso? Você parecia ser um ótimo namorado, eu acho. Não consigo pensar em um motivo para alguém fazer isso, Gardfield. - Falou sem parar, não percebendo que havia usado o nome do metamorfo, coisa que fazia poucas vezes.
Sabia que tinham intimidade para se chamarem pelos nomes, mas não tinha encontrado um momento para que pudesse usá-lo.
- Ela me falou, Rae. Disse alguma coisa sobre não sei o quê, líderes de torcidas precisam manter um status, blá blá blá, namorado que joga futebol, e no fim acabou comigo.
- Literalmente. - Ravena não controlou a língua, e Mutano riu.
- Outch. Doeu, mas não é todo dia que você faz uma piada, então vou seguir em frente.
- Me desculpa, eu não quis ser rude.
- Não foi rude, gatinha, você tem um timing. - Sorriu, e ela permitiu-se sorrir um pouco, se sentindo bem em sentir o ânimo do menino começar a se fazer presente novamente.
Era verdade que não era muito fã de pessoas felizes o tempo todo. Ou na maior parte do tempo.
Acreditava que a felicidade era ilusão, mentira, alguma bobagem qualquer que a irritava.
Nada era mais irritante do que sorrisos de manhã, mas oras...
Morava naquele lugar a mais tempo do que achou que moraria.
Kori e Gar eram as pessoas mais de bem com a vida que ela conhecia, e, apesar de no começo se irritar com cada riso, percebeu que as coisas ficavam mortas quando eles não apareciam sorrindo por ali.
Não era a mesma coisa quando Dick não ficava feliz e confiante depois de um bom treino, ou quando Cyborg não cantarolava enquanto fazia melhorias no seu carro que realmente não precisava de melhorias alguma.
As coisas não eram a mesma quando Kori não aparecia para desejar bom dia para todos, e até para alguns móveis - não entendia essa parte - ou quando Mutano não fazia suas piadas.
Ela passou a apreciar até a discussão entre Cyborg e Mutano sobre tofu vs carne.
Havia aprendido a morar ali, e não podia mentir.
Gostava de vê-los felizes.
Gostava de ver Mutano sorrir.
Até gostava de algumas piadas, mas não riria nem que Trigon viesse em pessoa ordenar que ela risse.
- Obrigado, Ravena. De verdade. Eu precisava dessa conversa, mesmo que eu achasse que ela viesse, sei lá, do Cyborg. É realmente muito legal você ter vindo falar comigo... Isso me surpreendeu. Não mais do que ver você fazendo piadas, mas... - Riu rouco, e ela o olhou nos olhos.
Olhos bem verdes, como todo o resto.
- Por que se surpreendeu de eu ter vindo falar com você? - Perguntou, e quem ficou sem graça de ter um olhar sobre si foi o metamorfo.
- É que... Você sabe. Falar de sentimentos não é seu lance, e... Ainda mais comigo.
- Ainda mais com você? - Indagou, e ele assentiu.
- É... Sabe, você não gosta muito de mim, e... - Deixou a frase no ar, e bagunçou o cabelo, mostrando-se mais sem jeito do que gostaria.
- Por Azar! - Exclamou, e olhou para o menino como se ele fosse louco. - É isso que acha?
- Não sei. É. Sei lá. - Respondeu nervoso, e ela suspirou.
- Eu não queria que pensasse isso. - Bufou, e ajeitou a postura. - Como você disse, sentimentos não são o meu... Lance. - Fez careta, e continuou. - Gosto de vocês quatro igualmente, apesar de ter relações diferentes com cada um. - Explicou com a expressão monótona, se controlando para não se exaltar demais. Não gostava dos maus entendidos que sua falta de tato com as pessoas lhe causava.
- Você quase nunca fala comigo. - Garfield acusou, e ela falou com a resposta na ponta da língua.
- E você fala comigo? Só fala comigo para me irritar.
- Não é pra te irritar! Ok, irritar é um bônus, porque você fica muito engraçada irritada, mas eu faço isso porque se eu não fizesse, você nunca falaria comigo. Foi o jeito que eu encontrei pra chamar a sua atenção e te incluir no grupo. Te fazer interagir com a gente.
- É um jeito bem idiota, Gar. - Usou o apelido do mesmo, coisa que nunca tinha feito antes. - Mas eu entendo. Sou uma pessoa de difícil acesso.
- Ô, se é! - Exclamou, e ela sorriu do jeito exagerado do metamorfo.
- Ok, não vamos mais brigar. - Ravena falou, e ele arqueou a sobrancelha.
- Espera. Isso quer dizer que eu não vou poder te irritar? Porque eu realmente gosto da sua cara de irritada.
- Mutano... - Usou sua voz autoritária, e depois suspirou, reprimindo um sorriso. - Você não tem jeito.
- Não tenho mesmo, gatinha. O que acha da gente ser mais amigos? A gente pode conversar mais, sei lá.
- Ok, mas vai ter que parar de me chamar de gatinha.
- O quê? Gatinha, não! Eu não posso abrir mão disso. É o nosso lance.
- Nosso lance? - Repetiu com ironia, e viu o garoto assentir.
- Nosso lance, gatinha.
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Lance.
FanfictionEla poderia ir embora ao sentir a presença de Garfield, mas ficou. Ravena ficou.
