Agathokakological

10 1 0
                                        

Mais uma vila, dizimada. Famílias destruídas, crianças órfãs, o trabalho de um monstro horrível. O caçador desce de seu cavalo, tudo parece tão normal que não parecia que nada havia sido feito, o que denunciava a anormalidade eram os respingos de sangue que se acumularam na neve, o vermelho contrastando com o branco impecável fazendo-o se destacar ainda mais.

O modus operante é o mesmo de sempre, adultos que foram persuadidos e pegos no charme do vampiro. Os corpos não estavam por perto, ele era cuidadoso para fazer o máximo de vítimas possíveis, as pessoas só iam desaparecendo devagar.

Erick levanta a gola da camisa, passando a mão em uma cicatriz em seu pescoço, as lembranças de como Noah, o vampiro responsável por todo aquele horror, conseguia seu alimento ainda eram muito frescas em sua mente, como se tivessem acontecido ontem, mesmo que já tivessem meses.

Ele foi até a igreja da cidade falar com o padre. Qual foi sua surpresa ao vê-lo caído no chão ao lado do púlpito, ele tinha uma expressão de choque no rosto, iguais todas as outras vítimas que Erick havia achado antes dele, por ele não estar escondido, o caçador sabia que aquela havia sido a última vítima. Ele o analisou, era um homem de meia idade, cabelos grisalhos, a calvície já o atingindo, tinham poucos respingos em sua roupa, Noah era bem educado na hora de comer, mas o que chamou atenção foi o zíper aberto das calças. Erick fez uma expressão de nojo e se benzeu.

- Deus tenha piedade de sua alma, padre. - Ele virou para a enorme imagem de Jesus crucificado que os assistia com uma tristeza no olhar, fez uma reverência e deu as costas, saindo da igreja, não tinha mais motivo para ficar ali se o padre estava morto.

Pelo tanto de pessoas que Noah havia matado, Erick tinha certeza que ele ainda estava por perto, era comum ele descansar por perto entre um genocídio e outro, e como era dia, e ele não podia sair no sol, era a hora perfeita de montar armadilhas e uma boa emboscada.
Mas antes disso, precisava auxiliar e mandar os sobreviventes para a cidade vizinha, que era maior e acolheria eles.

Ele e sua cavalaria estavam auxiliando os cidadãos a fazer suas malas e colocá-las dentro da carroças, sairiam em breve, mas Erick estava angustiado, estava perdendo tempo de sol, quando conseguiram acabar tudo ele calculou que só tinha mais ou menos uma hora de sol restante.
Ele sentiu então alguém segurar sua mão, ele virou o rosto rapidamente e deu de cara com uma senhorinha, ela era pequena e bem enrugada, devia ter por volta de 90 anos, se não mais.

- Senhor - Ela tinha lágrimas nos olhos e a voz embargada pelo luto. - Deus abençoe a sua vida e eu espero que o senhor consiga pegar aquele demônio. Ele matou meu filho mais velho... Meu primogênito... - Ela começou a chorar e se jogou nos braços do caçador, chorando e soluçando alto. - Meu filho...

Erick fez o possível para consolar a senhora, mesmo sabendo que não tinha muito a ser feito. Ele a encaminhou para a carruagem, garantindo que ia pegar o monstro e vingar o filho dela e muitos outros que tinham perecido no ataque. Ela o abençoou profundamente, ao que ele agradeceu e a abençoou de volta.

Ele sabia que tinha perdido tempo, muito tempo, e sua angústia só aumentava. Quanto tempo de sol ainda tinha? Menos de duas horas com certa, mas não importava, a vila tinha sido evacuada e ele precisava agir rápido. Ele entrou dentro da floresta, totalmente armado, em suas costas se encontrava sua balestra com flechas de prata, a balestra era lindíssima, tinha um cabo branco de madeira com o arco de ouro entalhado com alguns detalhes, em sua cintura um chicote com três bolinhas de prata na ponta, uma espada e um punhal, todos de prata. Ele também tinha um cantil com água benta.
Ele levava uma grande bolsa com cordas e redes, armadilhas de urso, apesar de saber que aquilo tinha uma alta chance de falha, mas ainda tinha chance de acerto.
Ele começou a montar as armadilhas colocando as redes em árvores com gatilhos específicos para ativa-las e as armadilhas de urso no chão.

O sol começou a cair e ele se escondeu em uma moita, no fundo ele sabia que Noah o encontraria e ele queria isso, talvez se o visse cara a cara ele poderia captura-lo mais facilmente.

Não demorou muito antes de ele ver as armadilhas de urso se desativando sozinhas. Olhos destreinados diriam que era bruxas ou fantasmas, mas Erick sabia da velocidade descomunal do vampiro, seu coração acelerou, ele puxou a espada, pronto para quando ele viesse.
Então ele sentiu um sopro na nuca, ele se arrepiou e virou para trás, balançando a espada junto com o movimento de seu corpo. Não tinha mais ninguém.
Sua respiração era pesada, ele sentia seus ouvidos se ficarem em todo barulho ao seu redor, como um cervo sendo caçado, só que diferente do cervo ele estava completamente preparado para contra-atacar.

- Você sabe que isso não vai funcionar. - Ele escutou a voz de Noah ecoando pelo escuro da floresta, ela parecia vir de todo lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Erick odiava quando ele fazia isso.

- Você é um covarde, sabia disso? - Erick disse com um sorriso de canto no rosto.

- Covarde? - Ele apareceu na frente de Erick, tinha um sorriso sádico no rosto e seus olhos vermelhos pareciam brilhar no escuro da noite.

- É. - Erick tentava lentamente pegar a balestra que estava encostada na árvore ao lado dele. - Não consegue enfrentar os outros e fica nesse joguinho de sedução.

- Não é um joguinho. - Ele desapareceu e apareceu atrás de Erick. - Se chama estratégia, coisa que falta em você.

Ele chutou a balestra do outro pra longe, apesar de não muito, Noah parecia querer deixar as coisas sempre um tanto mais interessantes entre eles. Ele sumiu novamente.

- Você matou um padre, não tem vergonha?

- Vergonha? - Ele soltou uma risada estridente. - Vergonha eu tenho daquele ser patético achar que tinha alguma chance comigo. - A voz dele ecoava pela floresta. - Foi tão engraçado, ele caiu direitinho no truque do pobre e belo camponês que precisava de uma ajuda da igreja. E ele quis me ajudar daquele jeito. Ha! patético.

Ele tinha um deboche tão forte em suas falas que fazia o corpo de Erick tremer de ódio, ele só queria acabar com ele de uma vez, mas é claro que não seria fácil.

- Como você entrou em terra sagrada?

- Sagrada!? - A risada estridente ecoou de novo. - Você sabe o que ele já fez para as crianças que você tirou daqui?

- Não me importa. - Erick mentiu. Não queria dar importância paras a palavras de um demônio como ele, não dava pra confiar em tudo que Noah dizia.

- Nada nunca importa para a igreja. - Ele apareceu na frente dele, cotovelos em uma árvore cortada e a cabeça em suas mãos, ele tinha uma expressão levemente aborrecida no rosto, revirando os olhos suavemente enquanto falava.

- Eu não sou a igreja

- Trabalha pra ela. - Ele apareceu na frente dele. - Eu já fui assim como você, - Ele se aproximou dele. - Bobo, fiel, reprimido. - Na última palavra ele tocou com o polegar nos lábios de Erick, que tentou dar uma espadada no garoto.

- Não se aproxime de mim! - Ele gritou, sua voz saindo um tanto trêmula, ele se amaldiçoou por isso.

- Você sabe que não tem chance contra mim, Erick. - Ele disse, novamente com sua voz ecoando pela floresta. - Você não assume que está caidinho por mim.

- Eu!? Nunca!

- Nunca, né... Interessante saber porque eu tenho provas do contrário.

- Você é um demônio, Mendez, por que eu deveria te dar ouvidos?

- Ain me chamando pelo sobrenome. - Ele apareceu em outro lugar, a mão em cima do peito. - Eu estou ofendido.

- Pouco me importa seus sentimentos. - Enquanto falavam, Erick andava cada vez mais em direção a sua balestra, nesse momento ele consegue pega-la e apontar, procurando Noah.

- Me pergunto se eu deveria fazer você gastar um pouco dessas flechas bonitas que você tem.

- Não se preocupe, eu vou gastar um monte delas na sua cabeça.

- Ain - Ele apareceu atrás de Erick, perto, perto demais para o gosto do caçador que virou de uma vez mas o vampiro já tinha sumido.

Erick passou alguns minutos procurando ele, mas não teve mais manifestação, nenhum insulto, nenhum flerte. Ele tinha ido embora.

- Covarde de merda... - Ele sussurrou antes de pegar suas coisas e ir embora dali também.

ECLIPSE Onde histórias criam vida. Descubra agora